Crianças x telas

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Telinhas: pode ser bom, se moderado. E muito ruim, se exagerado ou precoce.

Por Daniel Becker, pediatra e autor do blog Pediatria Integral.
22.04.2013
Atenção, mães e pais que desejam criar filhos mais inteligentes. Pesquisas diferentes apontam na mesma direção, aquela que os sábios de todos os séculos que nos antecederam já sabiam. Não é o Baby Einstein que vai fazer seu filho mais inteligente. Não é ouvir Discovery em inglês; não é CD com Mozart (nada contra!), nem brincar com joguinhos inteligentes no tablet ou no iphone ou no computador, nem ligar a TV nos programas “educativos”.O que vai fazer seu filho mais inteligente, melhor, mais humano, mais bacana é interagir com: 1- gente; 2 – livros.Inúmeras pesquisas já deixam claro: bebês não precisam de brinquedos caros nem ipads; bebês até ao menos 18 meses se beneficiam pouco da interação social em grupo com outras crianças (quem aproveita bem esse contato são os vírus e bactérias). A melhor estimulação para eles são as trocas afetivas diretas, a interação com o outro, os cuidados do dia a dia – banho, refeição, conversa, passeios, o brincar com o cuidador. E mais tarde, os brinquedos simples e os livros, que permitem que a criança crie seu próprio universo lúdico e imaginário. Naqueles momentos preciosos em que seu filho está interagindo com você, com livros, com bonequinhos, uma casinha, uma caixa de papelão e contando uma história pra si mesmo em voz alta, pode ter certeza de que ali ele está se tornando uma pessoa melhor.

E ainda me aparece essa reportagem:
http://oglobo.globo.com/economia/creches-hi-tech-proliferam-no-rio-chegam-custar-mais-de-2-mil-por-mes-7605446
… mostrando que creches mais caras do Rio, as que cobram 2.500 reais colocam ipads no berçário. É curioso, pois a exposição precoce às telinhas e a estimulação excessiva pelos tecnologia é exatamente uma atividade nociva para o bebê, que queremos evitar.

A criança brasileira detém o recorde mundial de tempo de televisão: mais de cinco horas. Pois é, mais que os americanos. Incrível? Não: nossas crianças passam em média 3 a 4 horas na escola, contra 6 a 8 horas da galerinha do norte. Nossos filhos estão sendo educados por publicitários. E eles não são bobos. Já se incluirmos tablets e telefones, os americanos chegam a incríveis sete horas e meia. Com a portabilidade, o tempo de exposição aumentou exponencialmente.

Temos muitos motivos para deixar nossos filhos em frente à TV ou ao computador/tablet. É nosso próprio hábito, acabamos sendo permissivos para com nossos filhos. Todos sabemos como é difícil evitar: como a vida moderna nos pressiona a deixá-los tempo demasiado à frente da telinha. Quem tem filhos em idade escolar sabe como a pressão dos pares e da sociedade em geral faz com que esses aparelhos dominem o mundo do entretenimento, da educação, do lazer, das relações interpessoais. Mas precisamos permitir o excesso, ou pior, expor os bebês?

É preciso no mínimo saber que é nocivo e desnecessário. O tempo recomendado máximo de TV/tablets recomendado pelos experts da Academia Americana de Pediatria para crianças até dois anos é: zero! (no entanto, mais de 50% dos apps da Itunes Store são direcionados para crianças pequenas). Criar o hábito muito precocemente – por exemplo, oferecer um tablet a cada vez que seu filho demonstra um pouco de tédio – pode conduzir a um comportamento quase compulsivo, e a uma incapacidade de lidar com a vida real, que às vezes é simplesmente tediosa. É nos momentos de tédio que as crianças tem a oportunidade de ser criativas, de usar a imaginação, de aprender a fazer companhia a si próprias e a lidar com o estar só.

O excesso pode ter conseqüências mais sérias. O tempo de telinha está diretamente ligado à obesidade (a relação é simples: quanto mais tempo, mais quilos) e às dificuldades de atenção; a TV deixa as crianças no chamado “estado passivo alfa”- onde aprendem pouco, não questionam, não refletem, apenas absorvem as mensagens publicitárias. E em média uma criança brasileira é submetida a 15 a 20 anúncios de junk food (comida-veneno) por dia de televisão, além de mensagens que estimulam o consumismo desenfreado, a erotização precoce, a futilidade.

O pior brinquedo para uma criança é aquele em que ela aperta um botão e a coisa responde com uma ação qualquer. Como não há nenhum espaço para a criatividade e a fantasia, ela se cansa em minutos. E aí ela pede outro – o que é ótimo para o mercado. Os tablets e computadores, por mais “educativos” que sejam, oferecem cenários prontos, interações fechadas, limitadas. Alguns jogos são geniais, admiráveis e sem duvida pedagógicos. Mas certamente muito limitados diante do mundo infinitamente belo e complexo que é a imaginação e a criatividade de uma criança.

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