UM LUGAR PARA FLORESCER

Por Denise Blanco, mãe do Gustavo

“Chegou o nosso bebê!” Assim nosso filho Gustavo, com um ano e sete meses de idade foi recebido no Jardim Waldorf, da então escola Aitiara da cidade, pela professora Andréa, como realmente uma família que recebesse seu novo integrante.
Nesse clima de aconchego, a sala do Jardim de Infância recebeu essa criança, ainda de fraldas, sendo que todas as demais crianças entre 2 e 6 anos de idade “ajudavam a cuidar” do pequeno, como irmãos mais velhos.

A princípio, com a mamãe insegura, ele chorou muito, a ponto de precisar vir da escola do campo a querida professora Maura para auxiliar. Aos poucos, mãe e filho foram se acostumando, e a criança foi ficando bem à vontade naquela “família”.
Um dia, na saída fui surpreendida com um emocionado:”-Esse menino é um presente!”, da professora Andréa, que se referia à participação do pequenino na aula de euritimia, como se mais velho fosse. É que tal participação não era exigida das crianças pequenas. Nesse dia, contou a professora, que ele fez a aula inteirinha, e com tal perfeição, que não parecia contar com menos de 2 anos de idade.

Também éramos frequentemente surpreendidos com fatos como o de ter aprendido, precocemente a nosso ver, a calçar os sapatos, a fazer uso de copos e pratos de vidro sem derrubá-los, a comer sentado à mesa com as demais crianças, a escorregar no escorregador, etc. São esses pequenos progressos que os pais acabam por tolher, sem sequer perceber, o que pode prejudicar (aprendemos mais tarde), até mesmo o “querer” e a “vontade” da criança. Realmente é automática a maneira como sentamos a criança e calçamos os seus sapatos, sem sequer pedir que ela tente fazê-lo sozinha, sem nos conscientizarmos que, a partir de um momento, isso é para ela perfeitamente possível.

Tais pequenas frases e atitudes das professoras, aliadas às verdadeiras “aulas” que eram oferecidas nas reuniões de classe e conversas individuais, fizeram nascer uma confiança cada vez maior nas profissionais, e despertaram um interesse pelo conhecimento dessa pedagogia.  Isto porque, ao contrário da maioria das famílias que opta pela pedagogia Waldorf, nós, a princípio, sabíamos muito pouco sobre ela. Fomos trazidos para esta escola, acreditamos, como que guiados pelos Anjos, e o que vimos foi um lugar muito aconchegante, de brinquedos naturais, muito parecido com uma casinha de bonecas. Mas uma casinha daquelas antigas, em que, pela falta da tecnologia, se brincava com sementes, toquinhos, bonecas de pano, tecidos.

Além disso, não havia nenhuma “sala de isolamento” para as crianças pequenas, quero dizer, nenhuma superproteção que as deixaria isoladas e, tecnicamente, “imunes” a tudo. É claro que, se quisesse, a criança podia dormir, e lá havia uma sala para isso. Mas ela não era privada de brincar na areia com as demais crianças, nem mesmo da roda ou da euritimia. Participava se quisesse por ser pequena, e frequentemente queria.

E com isso aprendia, e crescia! E aprendia a falar cada dia melhor. E vencia muitos desafios da infância. E mesmo sem estar “isolado” dificilmente adoecia. E ganhava imunidade e saúde. Aprendeu a comer muitos tipos de alimentos, como as diversas frutas, milho cozido e granola (para esta ele torce o nariz, é verdade!).

Uma tarde, quando ficava na escola em período integral, com mais ou menos três anos, cheguei para buscá-lo e a professora Maura me chamou ao parque, onde o encontrei sentado em uma pequena mesa, muito concentrado e com miçangas em volta as quais cuidadosamente colocava em um fio de linha. Foi o primeiro móbile que fez. Disse a professora que ele a viu ali trabalhando e quis fazer também, sentando-se com ela enquanto as outras crianças continuaram a brincar no parque.

Nossa trajetória na Florescer foi muito rica em aprendizado para toda a família. No segundo ano de Jardim de infância, em 2008, nosso filho passou por problemas de comportamento. Não sendo mais o “bebê” da turma, passou a ter ciúmes das crianças menores e tentava agredi-las.

O diferencial na pedagogia Waldorf ficou claro para nós nesse momento. O assunto foi tratado pelas professoras com muita seriedade e ao mesmo tempo sutileza. Sempre conversavam comigo na saída da escola sobre algum fato que havia acontecido, não para criticar, mas para procurarmos juntas uma explicação e uma maneira de acabar com o problema. Tais conversas ficavam entre nós, e jamais houve a exposição do nosso filho como uma criança-problema, que de fato ele não era.

Só mais tarde, em 2010, quando me preparava para ir ao Congresso Internacional de Jardins de Infância Waldorf, em São Paulo, a convite das professoras, é que fui entender a profundidade dos trabalhos das professoras do jardim. Nos preparativos estudamos uma conferência de Rudolf Steiner, realizada em 1919, e ali eu descobri como realmente cada criança é “única” e é vista como única pelas professoras. Descobri que todos os dias as professoras realizam um exercício de meditação sobre seus alunos. E fiquei ainda mais encantada: que outra pedagogia faz isso?

Aí, entendi que não caiu do céu (ou talvez tenha caído!) a idéia das professoras em adotarmos para o Gustavo, na época do ciúme, um irmãozinho, já que ele não tinha nenhum e era o neto mais novo da família. Sugeriram que fizéssemos para ele um boneco de pano, que ele teria que tratar como se fosse uma criança menor, ou seja, não poderia bater. De fato a idéia deu muito certo: no começo, quando ele batia no boneco eu o acolhia como se fosse uma criança, advertindo o Gustavo que não podia bater nele. De início ao ver a cena nosso filho se colocava a chorar alto, visivelmente enciumado. Aos poucos foi mudando seu comportamento, deixou de agredir o boneco, e também deixou de ter tanto ciúmes dos amiguinhos da escola. Um dia a professora contou que ele, ao ver outro amigo dar um tapinha na cabeça de uma menina menor disse:”- Não pode bater nela, ela é minha amiga!”.

Foram tantas festas pedagógicas e tantos trabalhos manuais. E a mamãe e o papai também entraram na dança: pudemos aprender com as professoras alguns trabalhos que foram vendidos no Bazar de Natal. E descobrimos como é bom ter alguns minutos de meditação e concentração, longe da TV e do computador. Vimos também a alegria de nosso filho com nossa participação nas festas pedagógicas: a roda da época nas festas, no começo tímida, foi ganhando um pouco mais de desembaraço com o passar dos anos.

O Bazar de Natal sempre foi dia de alegria e descontração: dia de encontrar e brincar com os amigos no parque da escola, dia de ver os pais trabalhando pela escola, dia de visualizar as duas famílias reunidas, a de casa e a da escola. Dia que muitas vezes foi definido pelo próprio Gustavo como “o dia mais feliz da minha vida!”

De repente chegamos aqui, no último ano de Jardim, e com um aperto no peito, é hora de deixar a Florescer e começar uma nova etapa no 1º. Ano. De repente, esse último ano foi ainda mais rico em aprendizado.

No ano passado o Gustavo não podia nem ouvir falar em mudar de escola e de professora. Ele dizia: “-Mas eu vou deixar a professora Andréa sozinha?”.

Neste ano começou a perder seus dentes de leite, fato indicativo do fim do primeiro setênio, de seu “pouso” na Terra. Adotou uma postura um pouco mais madura. Fala com alegria da ida para a nova escola e já não da forma como falava no ano passado sobre deixar a “prof.”.

E, como disse a professora Andréa em reunião sobre os desenhos das crianças, ao mostrar os desenhos que foram feitos pelos alunos que estão indo para o 1º. Ano, estamos agora com a sensação de “dever cumprido”.

A atenção especial aos futuros 1º. anistas também nos chamou a atenção. Dar a eles mais responsabilidades e tarefas, exigir deles desenhos “completos”, a verificação da fala e da coordenação motora, muitos aspectos foram trabalhados nesse ano. E é imensa a nossa gratidão à querida Geertje, que está efetuando um trabalho tão precioso, principalmente nesse momento, apesar de tê-los observado durante todo o jardim.

Também a aula de Kantele aplicada nesse último ano pela professora Tamara, frequentada com muita alegria, parece desenvolver neles uma capacidade de concentração e atenção que sabemos que será necessária nessa nova etapa mais cognitiva.

Por todos esses motivos e outros que não caberiam no papel, queremos agradecer a essa família Florescer, que tem um carinho especial por cada criança, entende que cada uma é um ser único com necessidades e aptidões diferentes, sabe lidar com as diferenças, cultiva entre as crianças o convívio com tais diferenças de forma saudável, natural e fraterna, lida com suas dificuldades sem lhes colocar rótulos, sem lhes trazer traumas, e possibilita a todas uma infância num mundo bom e feliz, como deve ser!

Denise, Eric e Gustavo

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