HELLE HECKMANN

Em outubro, a educadora Helle Heckmann esteve no Brasil e foi entrevistada por Aline Grego, mãe da escola. Helle é representante mundial na International Steiner Organization e ministra cursos em diversos países. É fundadora do primeiro Jardim Waldorf na Dinamarca.

“É necessário toda uma comunidade para educar uma criança”.

As criança precisam observar e aprender como criamos o nosso dia a dia. Antigamente, elas tinham essa possibilidade, porque as pessoas eram visíveis no seu trabalho. Hoje, as crianças vivem em lugares fechados e longe da família. Isso significa que o Jardim de Infância, nos dias atuais, tem que criar o trabalho real, para que as crianças possam conhecer a vida.

Esse “trabalho real” pode ser fazer o pão, a comida, fazer a limpeza da casa… Se as crianças não aprendem esse processo, o dia a dia da vida, podem se tornar consumidores, ao invés de atores. E isso é uma preocupação para mim. Nosso Jardim de Infância é como uma casa, onde todo o trabalho necessário é visível para as crianças e é feito com as crianças. Elas precisam participar, precisam ver e praticar, e, então, podem sair e brincar.

Professores de Jardim de Infância devem ser cuidadosos com o modelo que oferecem às crianças, devem ser “criadores de lares” e não babás. Precisamos criar um espaço onde a criança se sinta necessária e querida. É preciso também ter ritmo, ensinar limites, ensiná-los como se comportar com outras crianças, como comer e todas essas coisas que antes aconteciam em família, e agora já não acontecem tanto, pois os pais querem ser amigos de seus filhos, quando deveriam ser responsáveis por eles e ensiná-los a crescer em um ambiente saudável e seguro, onde as crianças sejam crianças e não pequenos adultos.

Como você acha que deve ser a interação entre a família e a escola?

Eu acho que o mais importante é o professor conhecer de onde vem aquela criança. Qual é a família, quais as condições em que ela vive, o que ela tem em casa e o que ela não tem. E o que ela não tem, a escola cria. Se você vive na cidade e as crianças estão o tempo todo dentro de casa, você deve ter seu Jardim da Infância fora, com muitas atividades físicas, mas, se você está no Havaí e as crianças estão fora o tempo todo, você faz seu Jardim da Infância dentro, com muita proteção. Nós temos que estar atentos para dar às crianças o que elas precisam.

Então, não há um modelo para o Jardim da Infância, ele deve ser de acordo com as circunstâncias, para aquelas crianças, daquela região. E é assim que você alcança os pais. Se você sabe, por exemplo, que os pais estão trabalhando muito e a criança está muito dentro de casa, você faz com que ela tenha muitas atividades fora, movimentem seu corpo físico, e, assim, seus pais ficarão aliviados, porque sabem que seus filhos tiveram atividades ao ar livre. Você apóia os pais.

As famílias devem participar mais de atividades dentro da escola?

Sim, se os pais quiserem e puderem. Em alguns lugares, não é possível, pois os pais não têm vontade ou habilidade para participar. Já estive em lugares onde haviam crianças tão pobres que os pais só vinham buscá-las e nada mais. Alguns Jardins de Infância conseguem ter espaços onde as pessoas adoram participar, em outros lugares, não é possível. Você não pode dizer que eles têm que participar, se eles não podem.

Você tem uma visão especial sobre a criança brasileira?

É difícil dizer. O Brasil é tão grande, visitei tantos lugares, um diferente do outro. O que eu posso ver aqui, com em muitos outros lugares, é que as crianças dormem muito pouco. Vão para a cama tarde e acordam cedo, o que faz com que fiquem mais irritados e desconfortáveis. É mais difícil saber se dormiram o suficiente. Outra coisa difícil aqui é manter o ritmo diário. De ver a necessidade do ritmo, de as crianças fazerem as mesmas coisas todos os dias. Os brasileiros são muito impulsivos e “com muita vontade de viver”. Têm muitos desejos e gostam de fazer muitas coisas, mas para a criança é muito difícil mudar tanto, é claro que ela se acostuma, mas isso tira a força que ela deveria usar para formar sua autoconfiança. Os adultos brasileiros devem aprender a trabalhar quietos. Vocês são muito barulhentos, falam riem, são tão maravilhosos em tantas coisas, mas têm pouco tempo para ficar quietos. O silêncio é necessário para o trabalho interno de crescimento espiritual.

A criança formada pela Pedagogia Waldorf está apta a enfrentar esse mundo tão competitivo, consumista e individualista fora da escola?

Eu acho que isso não é um problema. Uma criança que tem autoconfiança pode estar em qualquer lugar do mundo. O problema são as outras crianças. Se eles só sabem competir, se só vêm a si próprios, eles têm um problema. A criança que tem senso do outro, que é flexível, pode estar em qualquer lugar, porque está segura em si mesma, não precisa de ninguém para lhe dizer como ser e podem tomar decisões sozinhas. Essa é a grande diferença. Então, depende de cada indivíduo, por exemplo: “Eu preciso de uma máquina de lavar, ou não?”. Não é uma escolha livre se você nunca lavou roupa. Se você só aprende a colocar a roupa na máquina, isso não é liberdade. Muitos pais superprotegem seus filhos porque têm medo de que suas crianças não sejam resilientes, quando é justamente o oposto. Proteger as crianças com laços saudáveis faz com que elas estejam hábeis a fazer escolhas.

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3 pensamentos sobre “HELLE HECKMANN

  1. Que se multipliquem as escolas Waldorf no Brasil!
    Que seus professores e diretores – no Brasil – sejam os primeiros a assumirem a postura descrita acima quanto à Pedagogia Waldorf.

    • Olá Gisele, primeiramente desculpe a demora mas estavamos de “férias” em um Congresso,rsrsrs Claro que pode usar a entrevista, alias pode usar qualquer artigo publicado por nós (só é importante colocar as fontes), pois queremos divulgar a Pedagogia Waldorf por todos os cantos. me conte sobre sua escola, se preferir mande um email para jardimflorescer@gmail.com falar com Andréa e quem sabe podemos até trocar informações. Atenciosamente,
      Andréa

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